
O ciclo FULGORES DE ABRIL propõe uma breve constelação de filmes marcadamente pessoais sobre as lutas de libertação, a Revolução dos Cravos e o período revolucionário em curso que se lhe seguiu. O que foram, o que poderiam ter sido e o que ainda em nós ressoa? Os filmes serão acompanhados de apresentações e de conversas para as quais gostaríamos de convidar as pessoas que habitam o concelho de Odemira a partilharem os seus testemunhos e histórias de vida. Para reimaginarmos colectivamente as lutas anti-fascistas e anti-autoritárias.

I.
SEMPRE
Luciana Fina
(2024)
DCP, cor, som, 108 min
Cinquenta anos depois, Luciana Fina revisita as imagens da Revolução dos Cravos em Portugal, reconsiderando a transição do fascismo para a libertação e o processo de construção de um novo país, para a sua emancipação e o seu futuro. É um tributo ao cinema que interferiu na história e que restitui, hoje, a hipótese de um momento extraordinário. Sempre atravessa a asfixia do salazarismo e da PIDE, as ocupações estudantis de 1969, o Movimento das Forças Armadas de 1974, os sonhos, programas e perspectivas do PREC, o Verão Quente e a descolonização.


II
Gestos & Fragmentos -
Alberto Seixas Santos
(1981-82)
DCP, cor, som, 90 min
Três variações sobre o mesmo tema: o das relações entre militares e poder. Em Portugal, no século passado. Otelo Saraiva de Carvalho narra o percurso que o levou, a si e aos seus camaradas do Movimento dos Capitães, da guerra colonial ao golpe de Estado do 25 de Abril de 1974, e as sucessivas crises que, destruindo a mítica unidade das Forças Armadas, conduziram ao 25 de Novembro de 75 e ao fim da revolução. Um professor (Eduardo Lourenço) analisa a descida brusca dos militares portugueses do seu «céu político» à política mais revolucionária. Como num romance policial, um jornalista americano (Robert Kramer) procura os culpados do fracasso da revolução de Abril. Do cruzamento destes discursos fragmentários nasce – como num puzzle que as várias peças vão completando – a imagem contraditória, fugidia e lacunar dos militares portugueses.
Restaurado pela Cineteca di Bologna e pelo World Cinema Project da The Film Foundation em L'Image Retrouvée (Paris), a partir dos negativos originais 35 mm, em associação com as Éditions René Chateau e a família de Sarah Maldoror. Financiamento concedido pela Hobson/Lucas Family Foundation. Este restauro faz parte do African Film Heritage Project, uma iniciativa criada pelo World Cinema Project da Film Foundation, a FEPACI e a UNESCO, em colaboração com a Cineteca di Bologna, para ajudar a localizar, restaurar e divulgar o cinema africano.


III.
CATEMBRE
Faria de Almeida
(1965)
DCP, cor, som, 45 min
Alguns meses após o início da guerra colonial, no bairro popular Catembe, em Maputo (antiga Lourenço Marques), Faria de Almeida faz um retrato cinematográfico da cidade e da sua periferia. Através de depoimentos e de um registo cómico caricatural, o filme expõe o contraste assimétrico entre os quotidianos dos colonos brancos e das populações negras. Longe da narrativa harmoniosa de elogio ao progresso colonial, promovida pela ditadura, Catembe seria severamente mutilado pela censura, tendo sobrevivido esta versão polida.
Cópia digitalizada pela Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema no âmbito do projecto FILMar, integrado no Mecanismo Europeu de Financiamento EEA Grants 2020-2024.
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Mueda - Memória e Massacre
Ruy Guerra
(1979)
DCP, p&b, som, 80 min
Tendo participado activamente na fundação do Instituto Nacional de Cinema de Moçambique, com Mueda – Memória e Massacre Ruy Guerra realiza a primeira longa-metragem produzida no país após a independência. Filmando a reconstituição teatral do massacre cometido pelas forças coloniais portuguesas na localidade de Mueda a 16 de junho de 1960, quando soldados portugueses abriram fogo sobre uma manifestação popular, Ruy Guerra misturou os registos ficcional (a representação dos acontecimentos) e documental (os depoimentos das suas testemunhas) num misto de improvisação e de cinema vérité. O modo original como o filme trabalha a peça e os depoimentos que a acompanham para evocar um acontecimento traumático que constituiu um dos marcos históricos da luta anticolonial do país, faz com que se apresente como uma obra fundamental no contexto de um cinema moçambicano.



